12° Congresso Ruepsy

Palavra de criança : diálogos e mal-entendidos entre psicanálise et educação

Resumos de Comunicações Livres

Sábado 03/06

Sessão 17

Inquietações iniciais de uma pesquisadora em psicanálise e educação.
Milene Martins (Universidade Federal de Minas Gerais)
Marcelo Ricardo Pereira (UFMG) 

Como pesquisadora em Psicanálise e Educação, indagamos sobre a relação entre o tratamento analítico e a pesquisa, gerando o questionamento: o pesquisador precisa sustentar seu trabalho nos três pontos de apoio da formação do analista, pois se não tiver realizando sua própria análise pessoal, participar de estudos teóricos e ter sua produção textual supervisionada, seu trabalho se sustenta cientificamente? Freud, em “Análise Terminável e Interminável” (1937), no papel de mestre, alerta para as perspectivas quanto aos resultados da análise, relacionando o término ao processo de auto-avaliação que o paciente aprende na transferência com o analista. O pesquisador também estabelece uma relação transferencial com o conteúdo investigado na medida que no texto escolhido, na leitura e na escrita não só a racionalidade está ativa, mas também os processos inconscientes, estando o pesquisador envolvido afetivamente com a pesquisa. A pesquisa em psicanálise e educação não está restrita a clínica, mas somente se desenvolve se tiver a dimensão clínica em seu horizonte, pautada no estudo do inconsciente, promovendo um trabalho de escuta clínica no campo social, buscando registrar o que escapa do real pela força das motivações inconscientes de quem é pesquisado e também de quem pesquisa (Pereira, 2016). Sobre o questionamento inicial, Freud responde ao afirmar, “mas onde e como pode o pobre infeliz adquirir as qualificações ideais de que necessitará em sua profissão. A resposta é: na análise de si mesmo, com a qual começa sua preparação para a futura atividade” (Freud, 1937). Da mesma forma o pesquisador, por estar imbricado com seu objeto de estudo, é indicado pautar seu trabalho no tripé da investigação psicanalítica. O pesquisador também realiza o processo de recordar, não como um fetiche no passado, mas suportar a repetição em ato no processo de escrever para elaborar uma produção acadêmica em psicanálise. Freud nos indica que a análise pode não ser conclusiva, sendo um processo singular na relação transferencial entre analista e analisante. Também na pesquisa em psicanálise e educação há algo que escapa e somos convocados a realizar uma pesquisa também singular.

A partir de “Análise Terminável e Interminável” (1937) de Freud, quais as peculiaridades da aliança entre o Eu e a educação?
João Pedro Santana Motta (Universidade Federal de Minas Gerais)

A partir de “Análise Terminável e Interminável” (1937), tecemos reflexões sobre a educação e os modos através dos quais ela pode exercer efeitos sobre o sujeito. Começamos com o conceito de mecanismos de defesa, que aparece na parte cinco. A referência à obra de Anna Freud faz com que visitemos sua produção e entendamos como a educação pode colaborar com o Eu em sua função, colocada por Freud, de evitar o perigo, a ansiedade e o desprazer. Nisso, traçamos paralelos entre o que aparece em Freud e Anna com as ideias de Kant sobre educação, destacando a disciplina e a instrução. Sobre essa última, ressalta-se seu aspecto social e normativo, evidentes na educação. Essa, por ser uma prática guiada por um “normal ideal”, possui uma distância do real, fazendo com que aquilo particular do sujeito lhe escape.
Parte-se, então, para a segunda parte, na qual o foco é a impossibilidade da educação, ofício impossível para Freud e tarefa dificílima para Kant. Retomamos “Análise Terminável e Interminável” no que diz respeito aos resultados insatisfatórios da análise e seus motivos, que podem também ser verificados nas tentativas de se educar. Além disso, a ideia de fixação em certos mecanismos de defesa por benefícios oferecidos anteriormente nos serve para duas advertências à educação. A primeira, relacionada à possibilidade da repetição de condutas – antes úteis, mas agora disfuncionais – no encontro com o educador. Essa não deve ser tratada ou reprimida, o que não é função do educador, mas acolhida. A segunda, recaindo sobre a distância do real e do ideal e o desapego ao último para que a educação tenha efeitos sobre o sujeito, mesmo permanecendo impossível.

De Winnicott a Dolto: a difusão da psicanálise pelo rádio.
Miguel Vallim (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

Se inúmeras discussões em torno da infância se concentram sobre a importância do espaço de fala dado às crianças, pode ser útil procurar na História outros momentos importantes de crise nos quais foi necessário oferecer uma escuta à altura. Essa comunicação se inscreve no campo da História da infância e da psicanálise com crianças. Entre 1939 e 1968, Winnicott participou de cerca de sessenta emissões de rádio, nas quais se endereçava às mães e a outras pessoas que se ocupavam de bebês e pequenas crianças. Anos mais tarde, entre 1976 e 1978, Dolto foi responsável pelo programa “Quando a criança aparece”, transmitido pela Rádio France-Inter, respondendo às cartas do público relativas ao desenvolvimento das crianças. Entre o pós-guerra inglês e o pós-maio de 1968 francês, as relações entre as crianças e a sociedade em geral se transformaram e os programas de rádio nos oferecem um testemunho dessa operação. A partir da análise dos programas, explicitaremos os objetivos de cada um dos psicanalistas, assim como os problemas encontrados e algumas das questões que derivam desse encontro particular entre a psicanálise e os meios de comunicação de massa. Diferenças quanto ao contexto em que as emissões se inserem, a visão da infância de cada um dos autores e também a linguagem radiofônica de cada época. Em diálogo com o tema do congresso, chamamos a atenção para um grupo específico de programas de Dolto: as “cartas de quarta-feira”. Trata-se de escritos endereçados pelas próprias crianças que – em primeira pessoa – buscam um destino para seus conflitos. Eles ilustram bem a proposta de Dolto em consonância com sua compreensão particular da linguagem.

Sessão 18

Quero coser! – uma roda de bordado livre com crianças refugiadas.
Thoya Lindner Mosena (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Esse trabalho tem por objetivo propor algumas reflexões sobre as condições necessárias para que a criança fale a partir de uma experiência de escuta que, embora não tenha acontecido no ambiente que costumamos circunscrever propriamente como clínico, guarda pontos de alinhavo com aquilo que fundamenta nosso fazer. Na companhia de Ricardo Rodulfo (2004) e suas pontuações de que “habitar um lugar é colocar coisas próprias ali” e de que “a maneira que uma criança tem de se alojar num lugar é através das marcas que faz e que deixa nele”, tomamos como ponto de partida a criação de um dispositivo que utiliza o bordado como mediador da conversa. Entre maio de 2020 e dezembro de 2021, realizamos uma roda de bordado livre com crianças venezuelanas refugiadas com suas mães em um abrigo temporário no Rio de Janeiro, Brasil. Ao longo do tempo em que se desenrolou a experiência, as crianças que, inicialmente, permaneciam dentro da casa em frente à televisão, fizeram um movimento de sair para o quintal, até que se aproximaram e pediram para bordar. Traçaram e bordaram temas, brinquedos e brincadeiras que povoam as diferentes infâncias, mas também significantes que talvez nos contem dos fios que se enredam na história desses pequenos sujeitos em deslocamento, embora não necessariamente à deriva. Podemos então aproximar esse movimento de brincar-desenhar-escrever-bordar a uma prática significante, tal como a formulou Rodulfo (1990)? Ainda que não tivessem propósito terapêutico, que efeitos podemos supor ou entrever dos encontros de conversa e bordado no percurso dos que deles participaram? A aposta é de que a oferta de um espaço de escuta compartilhado pode costurar algo singular a partir do tecido comum, que possibilite seguir em trânsito, ancorados no entre-línguas em que se cartógrafa um lugar na chegada a um novo território.  

Do mal-entendido à “não escuta” do adulto: qual língua para escutar a fala da criança surda na situação educativa?
Gabriela Patiño-Lakatos (Université Paris 8 e Université Sorbonne Paris Nord)

A partir da noção de “não escuta” (Mannoni, 2008), proponho abordar a questão do lugar que o adulto ouvinte dá à palavra da criança surda no vínculo educativo, entre a língua oral e a língua de sinais. Essa situação pedagógica “entre-duas-línguas” põe em evidência os desafios subjetivos que sustentam uma função simbólica de tradução que vai mais além da questão do domínio linguístico: trata-se da passagem da língua oral para a língua de sinais, porém mais profundamente da língua infantil à língua adulta. Essa situação questiona a capacidade do adulto de “escutar” e “traduzir” (Laplanche, 2008; Jakobson, 1963) a demanda da criança como sujeito, para responder efetivamente articulando a demanda da criança à sua própria demanda educativa. Com base em minha experiência clínica, assinalarei duas barreiras potenciais à emergência da palavra na relação educativa: uma, manifesta, a da linguagem com a qual nos comunicamos; outra, latente, a do posicionamento subjetivo do adulto ouvinte diante da surdez e, mais genericamente, diante da palavra da criança e dos modos não linguísticos de expressar seu mal-estar. Quando sua autoridade é posta em questão, o discurso do professor pode acabar recorrendo à figura imaginária do pai que embaraça a função simbólica do nome-do-pai (Lacan, 1966). Sem que o professor se dê conta, ele pode prender a criança em um mundo imaginário do qual ela terá dificuldade de se libertar para se construir como sujeito.

Acolher uma criança não-falante em francês [alofona].
Pascaline Tissot (Université Paris 8)

Como uma aluna do jardim de infância, que chamaremos de Sihem e que não fala francês, se tornou, na sua classe, “a criança que não fala”? Sem conseguir se comunicar com Sihem, ninguém se dirige a ela. E ainda assim, essa criança parece estar numa busca perpétua de encontro com o outro, colocando em operação variadas estratégias para contornar a dita “barreira linguística”. Essa situação, observada durante uma das visitas de classe que faço como formadora junto aos professores estagiários, será relida na pesquisa em uma perspectiva referida à psicanálise. Segundo Lacan (1953), a palavra não é um simples instrumento de comunicação, ela nos permite ocupar um lugar subjetivo. Além do aspecto comunicacional, é a capacidade do professor de endereçar uma palavra a uma criança que é interrogada. Mais aquém da aprendizagem de uma segunda língua, trata-se de poder estar subjetivamente presente diante do outro, de endereçar uma palavra a essa criança alofona que lhe permita “traduzir” seu novo ambiente. A palavra do professor se torna um ponto de ancoragem que permite à criança fazer ouvir sua voz. O lugar ocupado por cada um, professor e aluna, num lugar de enunciação e num laço de transmissão, abre então um questionamento sobre a dimensão ética do encontro.
Inscrevendo essa comunicação numa articulação entre pesquisa e formação, desejo reafirmar a necessidade de lembrar aos professores em formação que ensinar é antes de tudo um ato que se inscreve no campo da palavra e da linguagem.

Sessão 19

Atravessamentos do discurso neoliberal na escola: a escuta-flânerie como dispositivo de pesquisa-intervenção.
Patrícia da Conceição Fagundes (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Rose Gurski (UFRGS e USP)

Este trabalho é parte de um projeto de mestrado em andamento que compõe os estudos do Eixo Psicanálise, Educação, Intervenções Sociopolíticas e Teoria Crítica do NUPPEC/UFRGS. A partir do suicídio de um aluno, uma escola público-privada de ensino-médio do RS, endereçou ao NUPPEC uma demanda referente ao mal-estar presente na instituição. As primeiras aproximações com o campo evidenciam que os adolescentes manifestam crises de angústia, uso de substâncias e outras manifestações de mal-estar. Frente a este cenário nos interrogamos: como os possíveis efeitos do discurso neoliberal na escola se apresentam no sofrimento psíquico de adolescentes? Como escutar a dimensão sociopolítica do sofrimento (Rosa, 2016) destes jovens no contexto escolar? Articulando aspectos trazidos pelos sociólogos Dardot e Laval (2016), que conceituam o neoliberalismo enquanto um sistema que institui uma norma de vida, bem como com a perspectiva do neoliberalismo enquanto gestor do sofrimento psíquico (Safatle, Silva Jr. e Dunker, 2021), o trabalho será realizado através da escuta-flânerie, um dispositivo de pesquisa-intervenção que articula a ética psicanalítica com as questões ético-metodológicas do tema do flâneur em Walter Benjamin (Gurski, 2019a; Gurski, 2019b). A escuta-flânerie viabiliza um modo da escuta psicanalítica estar presente em outros sítios que não somente o consultório. No que se refere à pesquisa, trata-se de, via a posição do flâneur, sustentar uma condição temporal que possibilite ao pesquisador-psicanalista escutar a dimensão infraordinária das narrativas, isso para que se possa evocar a dimensão do sujeito no espaço escolar. 

Efeitos da palavra dos alunos nas aulas de ensino moral e cívico na escola na França.
Séverine Fix-Lemaire (Normandie Université)

Na França, o EMC (ensino moral e cívico) coloca em evidência a fala do aluno. No entanto, as falas dos alunos escutadas a propósito de suas experiências de EMC em suas classes de CM2 (série final do ensino fundamental 1) apontam uma constatação: “o EMC nos ensina a nos comunicarmos melhor, conversar, dizer os problemas para resolvê-los, mas os professores não fazem isso…parece que eles não gostam quando falamos em EMC”. Esse ponto de vista dos alunos coincide com meu ponto de vista de formadora especialista de EMC e de pesquisadora (Fix-Lemaire, 2022). Parece que a fala dos alunos no EMC gera um embaraço em alguns professores das escolas (PE). No EMC, esses PE se verão constrangidos a suportar a fala dos alunos, nas duas acepções do termo: “ajudar, sustentar” e “tolerar, sofrer”. Eles seriam então tomados em uma tensão entre, de um lado, responder à ordem institucional que os incita a incentivar e a sustentar a fala dos alunos para os ajudar a tornarem-se cidadãos, e de outro lado, tolerar, ou mesmo sofrer, a renúncia a seu lugar de sujeito suposto saber (Lacan, 1966). Nesse contexto, quais seriam as causas subjetivas do embaraço gerado em certos PE de EMC por essas falas a eles endereçadas? E, de um ponto de vista formativo, como fazer com que esses professores “gostem quando os alunos falam em EMC”?

O sujeito do desejo no campo da educação – impasses e possibilidades frente a demanda de alunos que anseiam por um lugar de fala.
Karen Graziele Tavares (Universidade de São Paulo)
Lisiane Fachinetto (Centro Universitário Faculdades Metropolitanas Unidas)

Este trabalho trata de uma experiência junto a uma equipe interdisciplinar de uma secretaria municipal de educação, no interior do Rio Grande do Sul: a invenção de um espaço de acolhimento de demandas, escuta analítica de alunos, reconhecendo a diferença entre o que o aluno comunica e o que a escola solicita. Além de fazer um convite à fala, promoveu-se discussões com professores, interrogando a função de diagnósticos. Os campos da psicanálise e educação têm em comum o sujeito. No entanto, a educação tem negado que o aluno seja um sujeito de desejo e que fale em nome próprio, tendo implicações no processo de aprendizagem. Atualmente no Brasil, quando a aprendizagem não vai bem, antes de investigar, questionar e buscar saídas para o impasse, a escola tende a recorrer a diagnósticos, encaminhamentos a profissionais da saúde. Um dos desdobramentos é a medicalização indiscriminada, saída encontrada pela escola em nome da eficiência da aprendizagem. Em contrapartida, a função do analista é desvelar o que está encoberto pelo sintoma e interrogar o que se passa na relação professor-aluno e o que implica a terceirização de responsabilidade do ato de educar. Considerando a criança um sujeito de desejo, reconhecemos sua capacidade de demandar, porém quando um espaço de fala é negado, o que lhe resta é sintomatizar. Preso ao discurso do Outro, sem poder dizer-se enquanto sujeito, se converte o aluno num sujeito “ineducável”. 

Sessão 20

Inclusão de Crianças Autistas: embaraços no campo da educação.
Amanda Abrahão (Universidade Federal de Ouro Preto)
Carla Mercês da Rocha Jatobá Ferreira (UFOP)

As discussões acerca do autismo vêm sendo cada vez mais debatidas e tendo respaldo nos âmbitos internacionais, nas políticas públicas e em produções científicas. Contudo, o campo educativo precisa considerar abordagens necessárias para cada um, visto que a inserção da criança autista requer um olhar e escuta atenta para que não se opere em contraponto, sua exclusão (Ferreira; Vorcaro, 2019). O estudo traz a interlocução com a teoria psicanalítica, realizando uma pesquisa bibliográfica com produções realizadas entre os anos de 2015 e 2022, através da tecitura do Estado da Arte, buscando compreender quais as tendências das pesquisas em relação à inclusão das crianças autistas no contexto da Educação Pública.
Investigamos assim, quais concepções e problemáticas se materializam nos discursos na construção e efetividade das políticas públicas que envolvem desde o campo jurídico e a gestão pública aos embaraços conceituais e o lugar do especial na educação. A articulação entre Psicanálise e Educação que se propõe aposta no sujeito, em que não há deficiência ou deficit a ser suprido ou adaptado, mas um sujeito a ser escutado, provido de subjetividade e de desejo, propondo que um processo educativo que caminhe na compreensão do valor terapêutico da escola (Bastos e Kupfer, 2010,) e na atenção às marcas simbólicas que vão ser construídas nas relações entre os sujeitos, de forma que cada um requer um direcionamento único que necessita a todo instante de uma “reinvenção” de metodologia, visto que cada um possui estruturações subjetivas diferentes (Jerusalinsky, 2012) ainda que denotem homologias de estrutura (Laurent, 2014).

Intervenções diagnósticas na educação: construção de narrativas sobre infância e autismo.
Saulo Bis Fagundes (Universidade Federal do Espírito Santo)

A partir de pesquisas que questionam o papel dos diagnósticos psiquiátricos, sobretudo no contexto da educação brasileira, busco compreender e discutir algumas questões em torno da medicalização e patologização da infância. A pesquisa tem foco nos dados de Transtorno do Espectro Autista (TEA), que denunciam um cenário alarmante em termos de números epidemiológicos. Dessa forma, busca-se verificar os critérios propostos por manuais médicos, como DSM e CID, para o diagnóstico de TEA, bem como suas repercussões na educação. Do ponto de vista das contribuições da psicanálise para esta temática, a importância da transferência para o estabelecimento de uma hipótese diagnóstica já convoca o professor a se incluir nos encaminhamentos que busca para determinado aluno. Objetiva-se, portanto, discutir os modelos de inclusão dessas crianças na escola, de modo a questionar os dispositivos utilizados pela educação para promover atenção e cuidado. Como a psicanálise pode contribuir para a escuta e protagonismo dessas crianças no contexto em que estão inseridas?

Onde habitam os querubins? Reflexões acerca do trabalho com a inclusão em uma escola privada de educação infantil.
Cléo Busanello de Medeiros (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Andrea Gabriela Ferrari (UFRGS)

Essa escrita surge a partir de uma pesquisa de mestrado que visa compreender as concepções de educadoras de uma escola privada de educação infantil brasileira acerca do seu trabalho com a educação inclusiva. Esta instituição tem como público os filhos das classes mais altas da nossa sociedade, geralmente vistos como a “norma” ou o “universal”. No seu decorrer, percebemos o excesso de prescrições e determinações que orientam o olhar das famílias e, por consequência, da escola com relação aos eventuais entraves no desenvolvimento e constituição psíquica da criança. Frente ao mal-estar causado pelo que o sintoma infantil pode denunciar, quem está em condições de dizer algo sobre ele? Família e escola se veem destituídos de um saber sobre aquela criança, e agora quem dita o caminho é o discurso científico (Assemany, 2016). Em nome de uma estimulação correta e ajustada para o melhor desenvolvimento possível, pais e educadores são instruídos por diversos especialistas nas formas mais adequadas de criar e educar a criança, sempre visando a supressão de qualquer manifestação desviante da “norma”. Desse modo, como sustentar um saber próprio da escola frente aos imperativos da ciência? Se a educação infantil compreende anos cruciais para a constituição psíquica, como garantir um fazer educativo que aponte para o sujeito que ali se forma e não apenas para a sua adequação? Propomos, a partir dessa pesquisa, a importância e a necessidade de sustentar a escola como espaço de construção de laços e valorização das singularidades, tendo os educadores uma função crucial ao tomar as crianças das quais se ocupam a partir do seu próprio desejo.

Sessão 21

“Without breaking her spirit”, reflexões sobre a transmissão no filme “The miracle worker” (1962).
Christiane Matos Batista (Universidade de São Paulo)

“The miracle worker” (1962) é a adaptação para o cinema da peça de teatro de mesmo nome, que, por sua vez, baseia-se no livro “The story of my life”, publicado em 1903 por Helen Keller. Cega e surda desde os 18 meses de idade, a autora expõe em sua obra a angústia por não conseguir se comunicar e oferece detalhes sobre o seu processo de aquisição de linguagem, conduzido por Anne Sullivan, sua professora. Compreendemos linguagem como o modo como se organiza a função simbólica específica da condição humana (Dolto, 2004). A partir da análise de cenas do filme, este trabalho tem como objetivo investigar como Sullivan provoca os « sentidos » da menina, produzindo significantes e, com isso, o seu ingresso no mundo da linguagem. Antes do encontro com Sullivan, a comunicação de Helen limitava-se ao uso de alguns poucos sinais, o que a fazia recorrer, constantemente, a agressões como forma de manifestar tanto desejos como insatisfações. Embora a família dedicasse a Helen amor e cuidados, a “impossibilidade”, até então, de acesso à linguagem comprometia o seu processo de subjetivação (Keller, 2003). A constituição da subjetividade depende do abandono da posição de objeto, uma mudança possível somente diante da presença do outro (Gusdorf, 2003). Por isso, é fundamental que haja espaço para a transmissão de marcas simbólicas rumo à conquista de um lugar a partir do qual o desejo seja possível (Lajonquière, 2001). Sendo assim, a relação transferencial estabelecida entre Helen e sua professora é também central neste estudo. 

Autoridade e transmissão em tempos de neoliberalismo: a criança em questão.
Ligia Rufine Nolasco (Universidade de São Paulo)

Este trabalho é um desdobramento da pesquisa de mestrado em que as questões acerca da autoridade e transmissão se tornaram evidentes diante do avanço do discurso neoliberal na contemporaneidade, que vem trazendo consequências significativas acerca da constituição subjetiva das crianças e dos lugares destinados a elas na sociedade. Vivemos no tempo do neoliberalismo, que mobiliza nossos valores e desejos, estendendo a lógica capitalista para as relações sociais e todas as esferas da vida, uma discursividade, tal qual anunciado por Lacan (1972). Um tempo em que experimentamos a precariedade nos vínculos, no trabalho, nas famílias e nas relações amorosas (Soler, 2016). Esse processo é incentivado, a partir das privatizações e da desinstitucionalização, tomando como único imperativo garantir que as mercadorias circulem, produzindo com isso um processo de dessimbolização (Dufour,2005) que esvazia tudo aquilo que é do âmbito cultural e poderia dar sentido à vida em coletividade, contribuindo também, com a crescente sensação de impotência dos pais na criação de seus filhos. Nesse sentido, podemos nos questionar se a perspectiva de criança autônoma difundida em nossa sociedade vem sendo captada em favor de uma criança tirana disposta a exigir o que o mercado pode oferecer. E, ainda, como a noção da importância de escutar uma criança vai sendo tomada pelo mercado com a ideia de que devemos atender a todos seus pedidos e que os pais devem garantir a felicidade dos filhos, através do consumo. Assim, refletimos o engodo do nosso tempo para pensarmos a parentalidade e a transmissão, considerando a importância da função parental de justamente fazer barra a essa perspectiva de gozo sem limites presente no discurso neoliberal, para que algo desejante possa emergir.

A experiência educativa no Brasil: sobre o não-lugar reservado à palavra escolar nos sonhos da nação.
Andressa Mattos Salgado Sampaio (Universidade de São Paulo)

Este trabalho analisa a insistência presente no debate acadêmico em pautar a formação de professores como um problema, ao situar o professor e a sua assim chamada insuficiente formação como responsável pelo fracasso escolar. A partir dos estudos psicanalíticos no campo da educação, propomos pensar tal insistência como um indício de algo que não se quer ver. Em nossa análise, o que não se quer ver passa pela questão: O que faz um professor? Enfrentar tal questão implica reconhecer que um professor faz parte de uma nação e dos sonhos dessa nação, que a experiência educativa reside no campo da fragilidade humana, e que a tarefa de um professor tem a ver com a responsabilidade com o mundo, no sentido da sua preservação, e com as crianças, no seu processo de filiação simbólica. Assim, analisamos como o imaginário pedagógico vigente, envolto numa mistificação (Charlot, 1975), ao reduzir a educação ao ensino parametrizado e a ação do professor a um processo semelhante ao da fabricação, esvazia a experiência educativa do seu sentido público, e aprofunda ainda mais a crise na educação, deixando as crianças lançadas à sua própria sorte (Arendt, 2018). A formação de professores no Brasil, na sua predominância tecnicista e utilitária, insiste em não reconhecer que a ação professoral implica a conquista de um lugar de palavra numa tradição em curso. Tal insistência repousa, dentre outros, na ilusão de não ter que se haver com o preço que deve ser pago, no campo do desejo, para que uma nação seja tomada por um sonho de justiça (Lajonquière, 2018). Do não-lugar reservado à palavra escolar decorre uma série de implicações para as crianças, que têm diminuída a possibilidade de se servir da experiência educativa a ponto de conquistar para si um lugar de palavra numa tradição existencial (Sampaio, 2021).

Sessão 22

Uma fábrica de deficiências, ou de como contornar a angústia de educar.
Martin Lamadrid  (Université Sorbonne Paris Nord )

A educação francesa está regida pelo paradigma da inclusão. Para isso, todo um dispositivo de controle e de ordenamento dessa inclusão foi necessário; e o psicólogo desempenha nisso um papel bem definido. Contudo, em Noisy-le-Sec, os encaminhamentos para a MDPH (Serviço Regional para Pessoas Deficientes) explodem e a angústia das crianças e dos funcionários parece não ser mais uma questão. Vivemos em um paradigma obsessivo e não mais tão histérico. Professores e diretores de escolas, obcecados por respostas, por números (QIT: quociente intelectual total), por diagnósticos, mas também, assombrados por palavras consideradas inaceitáveis (como “psicose”). A psicanálise pode dar pistas sobre os mecanismos que existem por trás dessa resposta intempestiva e mecânica que funciona como paliativo face à tarefa angustiante de educar. As grandes questões que precisam ser feitas urgentemente são as seguintes: que tipo de criança quer a Educação Nacional? Como dar lugar ao sujeito nessas situações? O que fazer quando a demanda do Outro é tão esmagadora que o sujeito parece dar lugar a um eu cristalizado, e sobretudo, um eu deficiente? Por que o norte de Paris é uma “usina” de encaminhamentos à MDPH? Que tipo de criança é a criança que quer a Educação Nacional em Noisy-le-Sec?

Das dores, dos atos. Que demanda os jovens confiados à proteção da infância endereçam através de suas ações?
Caroline Le Roy (Université Paris 8)
Narjès Guetat-Calabrèse (Université Paris Nanterre)

A questão dos limites, e a repetição de ações de ruptura contra eles, movem os sujeitos, as instituições e as práticas educativas no seio das instituições de proteção à infância, colocando em evidência o hiato entre temporalidade educativa e psíquica. A partir de duas vinhetas que relatam a entrada de adolescentes em um MECS [Centro de atendimento socioeducativo], mostraremos as falhas do processo de simbolização psíquica, os funcionamentos em espelho (Pinel, 1996) entre jovens e equipes que daí resultam, girando notadamente em torno da culpabilidade (Freud, 1914). Dessa forma, questionamos a postura do educador, e mais amplamente as posições clínicas e epistemológicas, segundo o modo de considerar as ações desses jovens pelo ângulo do acting out ou por aquele das formas particulares de associação livre (Ferenczi, 1932; Balint, 1971).

O lugar do sujeito entre as vozes da instituição.
Gabriela Morais Machado (Universidade Federal do Espírito Santo)

A partir de uma leitura de Freud com Lacan, consideramos que a constituição do sujeito depende para advir de um chamado do Outro, encarnado por aqueles que emprestam a fala ao bebê para que ele possa, posteriormente, tornar-se falante. Sendo assim, a conquista da fala passa pela montagem de uma dinâmica invocante, suportada pelas vozes que o rodeiam e pela constituição de um ponto surdo, que viabiliza o surgimento do sujeito desejante (Vives). Nesse sentido, o trabalho visa interrogar o lugar do sujeito em meio às vozes que disputam o saber sobre a criança em uma instituição educacional. Nota-se que a busca por uma verdade sobre a criança, fundamentada por alguns discursos, pode fixar o sujeito em um saber atribuído pelo Outro. Então, considerando as possíveis contribuições da psicanálise, destaca-se a hipótese da constituição de um ponto surdo para fundamentar a aposta em um trabalho que favorece a manifestação da singularidade.

Sessão 23

A escuta psicanalítica de jovens em situação de vulnerabilidade social através do slam e das Rodas de R.A.P: a construção de espaços de elaboração e de produção de novos sentidos singulares e coletivos.
Bruna Ferreira de Oliveira (Universidade de São Paulo)
Rose Gurski (UFRGS e USP)
Ayelen Agundez (UFRGS e USP)

Este trabalho nasce da experiência de escuta de adolescentes que frequentam os espaços de slams (campeonato de poesia falada) e de rodas de R.A.P (Ritmos, Adolescência e Poesia) desenvolvidas no NUPPEC/UFRGS e USP. Entendendo que a experiência do slams se aproxima das Rodas de R.A.P – dispositivo de pesquisa-intervenção construído junto aos meninos da Internação Provisória (IP), porta de entrada da política socioeducativa brasileira – pois ambos trabalham com os efeitos poéticos através das rimas. Buscamos, portanto, tensionar os destinos que as condições de vulnerabilidade social produzem, pois alguns desses adolescentes tomam a via do ato infracional a fim de enunciar seu mal-estar, enquanto outros dirigem-se ao slam, tentando criar poesia. Propomos, portanto, o fortalecimento das vias poéticas, tanto do slam como do rap, enquanto formas de resistência, luta e produção de novos sentidos singulares e coletivos (Gurski & Strzykalski, 2018). 

Dopinguniversitário:enhancement cognitive”, neoliberalismo e a vociferação do supereu.
Lucas Emmanoel Cardoso de Oliveira (Universidade Federal de São Carlos)

O “enhancement cognitive” faz referência ao uso de substâncias psicoativas por pessoas que não têm transtornos de deficit intelectual, mas querem aprimorar o seu processamento cognitivo. Esta realidade tem comparecido de modo progressivo nas instituições educativas, o que pode ser compreendido como uma das manifestações do imperativo neoliberal que propala o máximo desempenho, o contínuo aprimoramento de si e a autorrealização como condições para participar desse engendramento social. Denominamos este quadro de Doping universitário. O objetivo deste trabalho é evidenciar os processos sociais para a emergência do“enhancement cognitive”, a adesão subjetiva a este imperativo, bem como as possibilidades de resistência a este processo silenciador e de reprodução capitalista. O procedimento metodológico é clínico-institucional e bibliográfico, o que é orientado pela psicanálise e pelas teorias sociais críticas. A partir da escuta de estudantes universitários, testemunha-se que uma das mediações subjetivas para esta adesão é o supereu, que exige gozo e vocifera a sua tirania no sujeito, determinando-o e reduzindo-o a objeto. Assim, se por um lado os sujeitos são capturados pelo discurso de liberdade por meio do contínuo aprimoramento de si, por outro, experimentam angústia na tentativa de alcançar o ideal e a impotência frente ao reconhecimento que este alcance é impossível. E a universidade, ainda que reproduza o imperativo neoliberal, pode ser uma via fundamental para a resistência e crítica a este processo na medida em que colabora para a singularização dos sujeitos e faz frente ao próprio domínio no qual está inserida.

Os ofícios impossíveis e o sisífico como política.
Claudia Campins (Universidad Autónoma de Entre Ríos)
Mariana Scrinzi  (Universidad Nacional de Rosario)

A política como arte constitui um dos três impossíveis freudianos: educar, governar e psicanalisar. O pano de fundo dessas práticas impossíveis ligadas ao tratamento pela palavra é revisado e articulado à enunciação lacaniana de que o inconsciente é a política.
A leitura de Bernfeld (1925) e Camus (1942) sobre o mito de Sísifo nos permite reconhecer no herói trágico a decisão de assumir o absurdo de sua punição. Tendo a insistência como gesto, ele cria o possível diante de uma tarefa impossível por seu inacabamento. O momento de paralisação como figura nos permite propor o tratamento do impasse como intervalo e não como beco sem saída. O impasse como intervalo estabelece um limite, um vazio que inaugura deslocamentos desejantes. Essa concepção permite lidar com os conflitos nas instituições educativas com a autoridade técnica que a responsabilidade social exige daqueles que praticam o impossível de educar. A função dada ao intervalo, que inaugura a “espera”, quando se funda na autoridade técnica, define uma postura “espectante”. Conceitualizar os conflitos e sua função educativa adquire uma nova relevância com a pandemia de Covid-19. A escola argentina e suas formas hegemônicas de educar se viram confrontadas a partir da digitalização obrigatória, juntamente com a afetação dos vínculos na virtualidade e dos corpos diante da distância social e das bolhas nas classes. Reivindicar uma margem para lidar com os conflitos nos coloca na perspectiva aberta pela psicanálise e sua tradição, em que as consequências políticas de reconhecimento do semelhante configuram uma aposta no laço social.

Sessão 24

Psicanálise na polis: o trabalho com adolescentes em instituições.
Paula Matoski Butture (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Sonia Alberti (UERJ)

Aline Lima Tavares (UERJ)
Danielly Meirelles Espíndola (UERJ)

Ao trabalhar em instituições públicas de atendimento a adolescentes, observamos que o modo como a maior parte dos profissionais lida com eles nos remete ao modo de fazer burocracia nos serviços públicos, aliado a uma ética moralista que se sustenta em discursos taxionômicos, anulando os sujeitos. Isso exige um esforço a mais quando se está referido ao discurso do psicanalista. Para analisá-lo, ocorreu-nos associá-lo com o papel que Edgar Allan Poe atribui a Dupin, no conto que Lacan discutiu em seu seminário homônimo, sobre “A carta roubada”. Para Lacan, Dupin pôde encontrar a carta onde a polícia não havia achado nada por estar voltado a outro referencial. Eis onde se encontra a contribuição da psicanálise nesse trabalho institucional: o sujeito, como a carta roubada, está e não está ao mesmo tempo, e onde estiver, onde quer que vá… a psicanálise pode fazê-lo valer. Se o sujeito é do inconsciente, ele só pode se revelar por meio da fala. Cabe ao analista promovê-la, inclusive quando se encontra inserido em um contexto de trabalho institucional. Partindo de vinhetas clínicas, gostaríamos de apontar que quando há quem escute, os adolescentes falam, primeira brecha para haver continuidade do trabalho, reforçando a pertinência do psicanalista na instituição a fim de presentificar algo da ordem do desejo, de modo que os adolescentes possam, ao longo dos atendimentos, eventualmente, se localizar subjetivamente e responder de seus atos.

Uma estratégia psicanalítica de intervenção: diagnóstico ético e político da juventude (des)orientada?
Soraya Souza (Universidade Estadual de Campinas)
Ana Archangelo (Unicamp)
Liz Amaral (Unicamp)

Nosso objetivo foi o de construir um modo de diagnóstico ético-político que permitisse ao sujeito, através da narrativa, constituir uma dimensão singular do fato social. O processo metodológico da investigação se baseou na psicanálise de orientação lacaniana, incluiu visita à Fundação Casa, observações na Instituição CREAS, análise da história institucional e das entrevistas realizadas sob transferência com o testemunho e as memórias da equipe técnica, além da análise dos casos clínico-políticos institucionais dos adolescentes A. e R. Na análise dos resultados, pode-se concluir que a delinquência decorre do desdobramento da cena social que se encarna no sujeito e o identifica em atos, sendo um dos elementos que contribuem para a institucionalização do sintoma produzindo o reincidente. A vulnerabilidade psicopolítica dessa situação produz o efeito de psicopatologização do laço social na experiência individual, operada pelo discurso capitalista, através de instrumentos que não levam em conta o contexto no qual a “experiência nua” se construiu, na tentativa de objetivar o sujeito, transformando-o em uma Coisa não-subjetivável, um sujeito gadget.

Psicanálise e adolescênciadas, das grades raciais à liberdade palmarina: o aquilombamento de jovens negros em medidas socioeducativas do Estado de Alagoas.
Jéssica Michelle Silva (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Rose Gurski (UFGS e USP)

Este trabalho refere-se a um projeto de mestrado que investiga os efeitos e afetações clínica-políticas de um dispositivo de escuta, as Rodas de RAP, junto a adolescentes do sistema socioeducativo de Alagoas, no espaço do Quilombo dos Palmares. As Rodas de RAP na Socioeducação são um dispositivo já consagrado no âmbito do NUPPEC/UFRGS, porém com este Projeto tratamos de racializar o dispositivo. Queremos investigar de que modo as Rodas de RAP no Quilombo de Palmares podem funcionar como um caminho de elaboração do sofrimento sociopolítico de jovens (negros) que vivem em situação de violência. A realização das Rodas, no espaço do Quilombo, também nos oferece a possibilidade de rememorar a história deste local e de seus protagonistas para as gerações atuais. Ressaltamos que, no período escravocrata, os Quilombos foram fonte de organização sociopolítica, de sobrevivência e de liberdade e que, no RAP, as letras versam sobre a realidade psicossocial dos sujeitos que as produzem. Ademais, sabemos que o próprio RAP carrega um esforço, que podemos chamar de civilizatório, de jovens negros periféricos que fazem musica a partir de suas dores, buscando através das narrativas musicais, uma ferramenta capaz de intervir no jogo da segregação e do racismo que vivemos no Brasil.

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