O evento, destinado a estudantes, professores-pesquisadores e profissionais das áreas de psicanálise, psicologia, educação, saúde mental e ação social, incluirá debates interdisciplinares sobre práticas e propostas educativas, experiências clínicas e sociais, pesquisas acadêmicas e outras atividades envolvendo a psicanálise numa conversação com a cidade.


Fala da criança: diálogos e mal-entendidos entre
psicanálise e educação.


“Há dizeres que operam, há dizeres sem efeito”
(Lacan, 1953).


Nossa sociedade contemporânea é fortemente sensível à fala da criança. Desde 1989, o avanço do direito à expressão, inerente aos direitos humanos, foi estendido ao campo dos direitos da criança. Com este congresso, queremos questionar a evidência da fala de crianças e adolescentes no seio das instituições educativas, sociais e de saúde. Como esta fala vem sendo acolhida e escutada? Que lugar lhe é dado? Que questões novas são colocadas? Como professores, educadores e pedagogos dão vida a essa fala no espaço institucional? Como articulam as dimensões da escuta e da fala com as dimensões de autoridade, transmissão de normas, valores e saberes no cerne dos processos educativos? Como a psicanálise pode lançar luz sobre essas práticas? Como ela nos permite compreender o acolhimento da fala em nossas sociedades, suas limitações e até mesmo seus impasses? Quais são os novos desafios para profissionais e pesquisadores?


Para refletir sobre esses desafios, podemos tomar como ponto de partida a virada decisiva operada por Freud, na qual Lacan sublinha, ao distinguir a fala de um simples instrumento de comunicação, isso para mostrar que a fala porta traços do desejo. Embora a fala esteja no centro dos dispositivos educacionais e da psicanálise, suas respectivas apreensões remetem a profundas divergências. Por um lado, a educação promove o desenvolvimento da fala para sustentar a razão e a responsabilidade da criança. Por outro, a psicanálise se interessa pelo infans, aquele que não fala e que é falado antes de mesmo falar. Para a Psicanálise, o dizer prima sobre o dito,o ato de fala é tomado como ato de afirmação de um sujeito. Assim, o analista se interessa pelo que falta à fala, por aquilo que lhe escapa ou que mesmo a sustenta. A função simbólica da educação limita o gozo e orienta o desejo. A cura pela palavra e sua interpretação desde a Psicanálise deixa espaço para mal-entendidos fundamentais: por um lado, o discurso do mestre; de outro, o discurso do psicanalista. Como, então, o lugar da fala da criança, entendida como portadora de um significante, como aquilo que nos humaniza e remete à condição de sujeito dividido, pode ser amparada no campo educacional?


Com o tema central “A fala de criança”, o 12º Congresso da Ruepsy visa colocar em trabalho o campo e a função da fala no que diz respeito às posições éticas e epistemológicas de praticantes e pesquisadores nos campos da educação, psicanálise e ação social Convidamos os interessados ​​a contribuir propondo uma comunicação em torno dos quatro temas principais:


A política da fala: discurso e autoridade. Nesse tema exploraremos a natureza dos laços entre o lugar dado à fala da criança e a função de autoridade ou transmissão de ideais inerentes à função educativa, seja na família ou na escola, ou ainda em contexto próprio das nossas sociedades atuais. Quais são os discursos a propósito da fala numa instituição de ensino? O que nos dizem sobre o lugar dado às crianças? Qual seria o status da palavra implicada? Além disso, como a ascensão do discurso político autoritário e a segregação que acompanha o ataque ao saber e à liberdade de expressão restabeleceria o lugar da fala para as crianças? Ou ainda como o ressurgimento de ameaças epidemiológicas afeta a escuta das crianças? Qual foi a especificidade da escuta de crianças e adolescentes durante a epidemia de Covid? Consequentemente, qual é o papel dos clínicos e dos profissionais da educação? Diversos textos normativos e recomendações institucionais enfatizam cada vez mais a necessidade de levar em conta a fala de crianças e adolescentes. No entanto, os clínicos, os profissionais da educação escolar e da intervenção social testemunham diariamente os impasses presentes em sua prática, diante das limitações de gestão para recolher e colocar em prática essa fala de forma singular, por exemplo, com a redução de espaços e tempos dedicados al acolhimento particularizado da fala da criança. Como entender esses aparentes paradoxos? Com este tema objetivamos promover reflexões sobre a transformação do laço entre a fala da criança e a função educativa, mas também a análises de variações mais circunstanciais, relativas a uma cultura ou contexto geopolítico específico.


O lugar da demanda e suas manifestações nos campos da psicanálise e da educação. Enquanto a educação se estabelece como paradigma da demanda do Outro, a psicanálise está mais ligada à demanda do sujeito, aos seus correlatos inconscientes e desejantes. No entanto, as crianças e adolescentes raramente estão na origem da demanda de atendimento de seu próprio sofrimento. Que efeitos podem ter as demandas educacionais em relação às exigências normativas ou às aspirações ideais? Como acolher a posição da criança diante da pluralidade de demandas da família e da escola que se entrelaçam? Como considerar ou engajar um ato de fala na escola? Como ouvir a manifestação de uma demanda que não passa pela fala? Este tema visará, assim, discutir e reintroduzir uma dialética entre estas diferentes formas de demandas que convidam a criança a exprimir-se ou a dizer-se.


Função e campo de fala no campo socioeducativo. As mudanças simbólicas em ação no laço social contemporâneo induzem a modificações na relação do sujeito com o real e, consequentemente, a novos usos e manifestações do discurso nas práticas de educação, intervenção social e de cuidado. Portanto, quais podem ser os referenciais teóricos capazes de sustentar uma clínica do sujeito em nossa sociedade contemporânea? Quais são as invenções que permitem que uma clínica clássica do significante enode os campos psicanalítico e educacional? Como definir mais especificamente a função da fala no laço educacional? Que dispositivos, que mediações ou que arranjos poderiam facilitar a fala da criança?


Fala e consentimento. A fala da criança nos desafia quando sua reinterpretação na idade adulta revela consentimentos desviados na infância, quando sua violência chega a desfazer o laço social, quando expressa com força um desejo confrontando os limites do corpo ou as proibições fundamentais, ou ainda quando luta para vir a ser. Portanto, tomar sua fala não garante necessariamente escutá-la. Como interpretar ou receber essa fala? Qual pode ser a incidência sobre a criança e o adolescente de uma resposta rápida ou complacente de uma instituição educacional ou médica? Como iniciar um trabalho com a criança ou o adolescente para incentivá-los a se aventurar no caminho dos laços sociais quando falar parece cobrar um preço muito caro, quando as manifestações de gozo se afastam da fala em favor, por exemplo, do mutismo ou da passagem ao ato? Quais são, aliás, as questões que levam a nos preservar de um forçamento da fala, nomeadamente tendo em conta o lugar do segredo e do silêncio para a criança ou para o adolescente? Com este tema, Fala e consentimento, pretendemos colocar em funcionamento as questões relativas ao consentimento, particularmente no que diz respeito às problemáticas contemporâneas da infância.

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Atenção!
Convidamos aos interessados a submeter propostas de comunicação livre entre 1° de setembro e 30 de novembro de 2022 na plataforma: https://ruepsy2023.sciencesconf.org

As propostas de contribuição devem conter:
• uma página de rosto com o nome, profissão, afiliação institucional, endereço de e-mail,
• um título e a indicação do tema no qual a contribuição se insere,
• um resumo de no máximo 2.500 caracteres (incluindo espaços), em francês, espanhol ou português,
• referências bibliográficas,
• até cinco palavras-chave.


Secretaria do congresso

Floriana Baldassi D’Arrigo: secretariat.ruepsy2023@gmail.com

Comité Científico

Anna Carolina Lo Bianco – Universidade Federal do Rio de Janeiro (Brasil)
Anne Bourgain – Université Paul-Valéry
Aurélie Pfauwadel – Université Paris 8
Dominique Méloni – Université de Picardie Jules Verne
Emmanuelle Brossais – Université de Toulouse Jean Jaurès
Émilie Chevalier – Université de Toulouse Jean Jaurès
Florence Savournin – Université de Toulouse Jean Jaurès
Ilaria Pirone – Université Paris 8 (presidente)
Jean-Luc Gaspard – Univérsite Rennes 2
Jean-Marie Weber – Université de Luxembourg (Luxembourg)
Laetitia Petit – Université d’Aix-Marseille
Léandro de Lajonquière – Université Paris 8
Luis Bahares – Universidad de la República (Uruguai)
Magdalena Kohout-Diaz – Université de Bordeaux et Université Charles (République Tcheque)
Marilia Etienne Arreguy – Universidade Federal de Niteroi (Brasil)
Mercedes Minniceli – Universidad Nacional de Mar del Plata (Argentina)
Patrick Geffard – Université Paris 8
Perla Zemanovich – FLACSO – Buenos Aires (Argentina)
Rose Gurski – Universidade Federal de Rio Grande do Sul (Brasil)
Segundo Moyano Mangas – Universitat Oberta de Catalunya (Espanha)
Yves-Félix Montagne – Université de Besançon

Comité de organização 

Dominique Méloni – Université de Picardie Jules Verne
Emmanuelle Brossais – Université de Toulouse Jean Jaurès
Ilaria Pirone – Université Paris 8
Jean-Marie Weber – Université de Luxembourg
Laetitia Petit – Université d’Aix-Marseille
Léandro de Lajonquière – Université Paris 8 (président)
Patrick Geffard – Université Paris 8
Segundo Moyano Mangas – Universitat Oberta de Catalunya
Yves-Félix Montagne – Université de Besançon

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